terça-feira, 16 de novembro de 2010

Alice’s Adventures in WonderWords

"Não pode viver a vida prá agradar os outros
A escolha tem que ser sua
Porque quando for encontrar aquela criatura
Terá que ir sozinha"

Essa fala, com ritmo de poema e naturalidade de prosa humana, é da Rainha Branca, vivida pela chique Anne Hathaway (que achei que tivesse sido dublada em português pela também chique e linda Angélica Borges, minha amiga Anjinha, mas fui informada por ela que foi pela igualmente talentosa Mabel César), na cena em que Alice pondera se aceitará o desafio de empunhar a espada contra o Jaguadarte, monstro que garante a tirania da Rainha Vermelha.

Não sei quando começou meu caso com Alice. Lembro de ter lido as Alices da Penguin Classics, de ter ganhado a edição comentada de Martin Gardner, com as ilustrações originais de John Tenniel (eu pedi!), de ter me apaixonado pela tradução do Sebastião Uchoa Leite, de ter flertado com a Lógica do sentido (Deleuze se apaixonou por Alice bem antes), de ter sido apelidada de Coelho Branco por uma aluna que notou que eu dizia sempre “estou atrasada!” (Tínhamos que ler a Alice em duas aulas!)

Se não chego a ser especialista em Alice, sem dúvida sou uma grande amadora, por isso tinha medo de ver a do Tim Burton, que eu sabia que era uma adaptação. E depois de o filme alugado ter passado três dias aqui em casa sem que eu conseguisse ver, resolvi enfrentar a versão dublada, a única disponível no PPV da Net e, logo na primeira cena, em que Alice desafia a mãe com palavras que soam muito verdadeiras, percebi o quanto ia me maravilhar.

Como os diálogos fluíam naturalmente, com ritmo de conversa humana, a verossimilhança se instalou imediatamente: apesar de anotar umas falas, em nenhum momento fiquei tentada a identificar o original de alguma delas. Quem é tradutor sabe que, em geral, a gente não vê um filme traduzido e/ou dublado em paz: a escolha das palavras geralmente grita, e o que era prá ser relax vira irritação.

Entre os fatores responsáveis pela fluência das falas, reparei no uso dos demonstrativos com “ss” (isso, esse, essa), em vez dos esquisitos com “st” (isto, este, esta), que alguém inventou que são certos em determinadas circunstâncias, mas que ninguém que eu conheça fala.

Também notei o uso do imperativo de terceira pessoa, o único existente no português falado no Brasil. Talvez alguém incorporado de Napoleão diga “Pegue uma água prá mim”, mas falantes brasileiros em sã consciência só dizem “Pega uma água prá mim” (com ou sem “por favor”), o que faz todo sentido, já que no Rio usamos o tratamento “você” (seguindo o “ele pega”, da terceira pessoa do indicativo), e não o “tu” (conforme o “que tu pegues”, segunda do subjuntivo menos o “s”).

A escolha do pronome do caso reto em lugar do oblíquo em muitos casos, só usado na escrita, também foi feliz. A Rainha Vermelha grita “Cortem-lhe a cabeça” (além de “Cortem as cabeças”, “Corte a cabeça”, uma inconsistência inconcebível na cabeça de muita gente), mas também “Ignorem ele, é maluco” (ou seria “Ignorem, ele é maluco”?), se referindo ao chapeleiro, e “Se estiverem escondendo ela, perderão a cabeça”. Parece claro que falas como “Ignorem-no” e “Se a estiverem escondendo” não seriam de gente, não de gente que eu conheça.

Por último, e talvez mais importante, é notável o uso natural da próclise, geralmente evitada por quem tem medo de errar, preferindo escrever e fazer com que personagens falem uma língua inexistente e irreconhecível. Assim, essa Alice traduzida e legendada surge mais humana quando diz “Me desculpe” (e não "Desculpe-me", como diria uma Alice lusitana).

Por sua força e por sua língua, essa Alice, do Tim Burton, mas também de tradutores e dubladores que não conheço, não é só a Chapeuzinho Vermelho que perde a inocência depois de se perder na floresta, nem só a Bela que doma a Fera pela delicadeza, nem só a anticinderela que toma as rédeas do próprio destino ("Eu faço o meu destino", ela diz), nem só a Joana D’Arc que enfrenta a morte, nem só todos os heróis que a vencem com uma espada. Alice c’est moi.

"Às vezes eu esqueço que tudo isso é um sonho".

terça-feira, 26 de outubro de 2010

We are not starving (ou sobre taxas)

Tenho montes de coisas prá fazer, mas a indignação me trouxe aqui.

De uns tempos prá cá tenho recebido mensagens constantes de uma empresa de tradução de Nova Iorque, que busca rápida e desesperadamente um tradutor ou revisor pelo amor de deus para uma tarefa de urgência. Seria totalmente normal, como vocês sabem, se a (não) dita empresa não se recusasse a informar as taxas a ser pagas pelo trabalho.

Ora, ou bem se acorda uma taxa prá ser usada em todos os trabalhos, ou bem se informa a taxa daquele trabalho específico, essa é a prática logicamente razoável. Alguém por acaso chama uma faxineira sem dizer quanto vai pagar a ela?

Como a mensagem é coletiva (ou "em massa", essa tradução que parece ter a ver com macarrão), só posso concluir que a ideia é que algum tradutor desesperado por trabalho tope uma coisa dessas, imaginando que será razoável (ou minimamente) pago e/ou que poderá começar a trabalhar prá tal empresa. Mas só alguém bem bobinho pode pensar assim, porque óbvio está que a ideia é pegar o primeiro tradutor desesperado por trabalho e pagar a pior taxa possível.

Eu poderia ignorar essas mensagens, seria provavelmente mais lucrativo, já que palavra é dinheiro, como sabemos (ó, acabei de receber outra!), mas acho que cada um tem sua responsabilidade quando uma classe de profissionais passa a participar de leilões por mão-de-obra mais barata a cada dia (e isso fora dos sites de leilões de preços).

Daí que numa das primeiras vezes respondi isso:

Hello K. and Cete,

Thank you for your very kind e-mail, the instructions seem to be quite clear.

The problem is that we have never agreed to translation/review rates, and xixixiCompany is getting well known in our market for using very low fees. I have been using a proofreading/editing rate of USD xixixi per word, can you please let me know if this is acceptable for your company? If so, we will be able to start a parnership and I can help with this task. Please let me know.

Agora já colo direto essa frase, seguida de Thanks and best regards:

I am sorry, but I will not be able to accept any job from xixixiCompany if you never inform what the translation rates to be used are (nor have any interest in talking about it). This is generally considered a bad practice.

Se querem me mandar spam de leilão, pelo menos vão ter que receber o meu também. E acho que todo mundo que recebe essas mensagens deveria criar uma linhazinha prá mandar prá eles também.

Em tempo, a referida xixixiCompany está entre as 10 primeiras empresas da lista das maiores do mundo e entre as 5 da lista das que crescem mais rápido. Assim é molé, né não?

domingo, 17 de outubro de 2010

Cocaína, DST e outros perigos

Como não tenho tido tempo de escrever, colo aí os comentários sobre o artiguinho lá da Digital, primeiro porque tem um elogio da Dani, e eu sou vaidosa:

1. danielle marins
04/10/2010 - 14h 40m
Adorei, Claudinha! O bom humor e a competencia de sempre.
Dani Soares

Segundo porque achei perigosa essa coisa de encontrar cocaína que o Andre conta:

2. Andre Luiz Duarte de Queiroz
04/10/2010 - 11h 57m
Enquanto as traduções automáticas não incluírem algum mecanismo de análise semântica minimamente eficiente, esse tipo de bobagem das traduções automáticas vai continuar. Eu mesmo, faço uso constante de traduções automáticas on-line, e sempre tenho que conferir que 'met coke' (coque metalúrgico) não seja traduzido como "encontrar cocaína"!

Falando nisso e também porque hoje começou nosso horário de verão, lembrei que outra coisa perigosa é a tal da DST, tradução que encontrei uma vez. O original também era DST, mas tinha a explicação entre parênteses "Daylight Saving Time".

Verdade seja dita: não sei se a DST veio da máquina ou do editor (eu estava pós-editando o arquivo e sou limpinha): à máquina o que é da máquina, e à pessoa o que é dela. O fato é que a Doença Sexualmente Transmissível estava lá, totalmente consistente e ameaçando os arquivos todos da megaempresa de tecnologia dona deles.

Nesse caso, seria preferível ter deixado o "Luz do Dia Salva Tempo" entre parênteses, que parece nome de igreja, mas... Ih, nem sei, hoje em dia a gente nem sabe o que é mais perigoso.

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Testando o Google Tradutor (versão compacta publicada na Digital)

Quem não teve tempo e paciência (ativos cada vez mais raros) prá ler a versão maiorzinha que botei aqui no mês passado, pode ver nesse link a versão compacta: http://oglobo.globo.com/tecnologia/mat/2010/10/04/testando-google-tradutor-922694261.asp

Gostei que não mexeram em quase nada, quase que só mesmo em todos os meus "prá", que viraram "para", como eu imaginava... Bom, eu gosto do "prá" e do "pro", usados por todo mundo que fala português e devidamente registrados no Houaiss, como os dicionários devem fazer. Colo aí, prá quem não acredita:

pro
1
contração
Uso: informal.
da prep. para e o artigo o
Ex.: <este ônibus vai p. centro> <telefonar p. Alberto>
2 da prep. para e o pronome demonstrativo o ('aquele', 'aquilo'); para aquele, para aquilo
Ex.: <deram o prêmio p. que fez a frase mais original> <não ligue p. que ele falou>

pra
preposição
Uso: informal.
m.q. para
Ex.: <vem p. cá, menino> <esse presente é p. mim?>

prá

preposição
Uso: informal.
m.q. para
Ex.: <vem p. cá, menino> <esse presente é p. mim?>

Mas também entendo que, prá evitar que digam que a língua está sendo destruída, como se a contração preposicional degenerasse mais do que a eleição do Tiririca, e como se a evolução não fosse inevitável e peremptória na boca e no papel todos os dias, se opte pelo formal em vez de pelo informal (embora o tom da publicação seja totalmente informal).

Como dizia a minha bisavó: mais vale um gosto que um desgosto e o que é de gosto regala a vida. E assim não gritam os possíveis indignados, já que indignação é igual ao que se sabe, cada um tem a sua.

domingo, 12 de setembro de 2010

Caetano mira a ênclise e quase acerta a próclise

Quem me conhece sabe que não sou de livrar a cara de tradutor sem noção ─ muito pelo contrário ─ embora a falta de noção não seja coisa só de tradutor. Mas vou ter que dizer que ênclises estranhas não são exclusividade dos tradutores. Todo dia (isso, eu não descanso!) vejo por aí um monte de ênclises esquisitas, nos jornais, nos sites moderninhos, nas campanhas de marketeiros fashion, nas sentenças judiciais de supostos eruditos, etc.

Durante os 8 anos em que tive uns 500 alunos de graduação por semestre, comprovei a hipótese de que as pessoas fazem ênclises medonhas porque foram doutrinadas a abominar as próclises. O horror, o horror! do professor secundário (absolvamos o primário) não era o analfabetismo, eram as próclises. Em turmas graduadas já tive que ler citações de nomes célebres do século 19 (lusitanos e brasileiros), na tentativa de convencer os candidatos a magistrados ─ uma elite que concluiu o curso de Direito e pode se dedicar a estudar para a magistratura estadual ─ de que a “próclise facultativa" não é crime gramatical, mas antes perfeição do Português do Brasil que, embora alguns ignorem, é a nossa língua.

Mas se a próclise é facultativa em todos os casos (menos em início de oração e, mesmo assim, só na escrita formal culta), por que se multiplicam ênclises abomináveis? Não vejo outro motivo ao não ser o fato de que, quando mencionavam a "próclise facultativa", nossos professores sugeriam que estavam gentilmente nos dando uma autorização para errar a nosso próprio risco, já que a preferência do português lusitano seria a ênclise, o que é só um quinto da verdade, já que há todos aqueles casos em que até os portugas da aldeia ─ como o meu avô que pouco conheci ─ a fazem naturalmente, como em “quando-se trata, como-se viu, que-se sabe, hoje-se diz, não-me conta, embora-se diga, tanto-se fala, isso-lhe apraz, etc (claro que os hifens aqui indicam a tonicidade, não a regra da escrita).

E que poder absurdo era esse o dos professores que, embora muitas vezes não conseguissem que muitos alunos lessem um só livro, conseguiam incutir em tantas mentes tamanho medo da próclise? Só o totalitarismo explica.

Assim, se com os futuros a ênclise não pode ser (nem em Portugal, nem no Brasil, nem na caixa-prego) e a próclise é um monstro abominável, a alternativa seria a mesóclise, que ressurge das cinzas na coluna de hoje de Caetano, embora o compositor sugira, de passagem, que a ênclise seja uma possibilidade. Diz ele:

"Mas os italianos – dos poucos ocidentais a não fazerem o plural com ‘s’ que, suponho, veio do acusativo romano – espantar-se-iam com o fato de uma palavra que já tem dois esses (...) os italianos, dizia, achariam absurdo fazer um plural com 's' numa palavra já com esses demais".

Mas por que não escrever “os italianos se espantariam”, tipo língua de gente? Talvez porque haja um travessão ali, antes do qual vem o sujeito, e saberão os deuses (será?) que regra pode haver condenando a próclise nessas situações!

Como os casos de próclise obrigatória (por motivos de tonicidade lusitana e também brasileira) são muitos (que falante saudável decora aquela lista de conjunções subordinativas e integrantes, pronomes relativos, demonstrativos, alguns advérbios, etc?) e os casos de próclise facultativa são todos, costumo fazer e recomendar o seguinte: na dúvida, vá de próclise (exceto em início de oração), que não há chance de erro.

Uma vez escrevi isso num manual de estilo para tradutores, mas minha chefe na época achou esquisito e mandou tirar. Numa outra vez, um aluno da escola da magistratura me perguntou surpreso: mas por que nunca ninguém me disse isso? Respondi que parece que tem muita coisa que não contam.

Em tempo: se você é tradutor, recomendo cautela ao usar a próclise para não ganhar um fail. Os avaliadores devem ter sido ótimos alunos, porque costumam ter ódio à próclise.

Em tempo2: Caetano já fez bastante de levantar a questão, resta que os escrevedores façam o dever de casa.

sábado, 11 de setembro de 2010

Testando o Google Tradutor (ou Seremos todos executados?)

Erros de tradução costumam ser motivo de boas gargalhadas. Alguns são mitos, como a legenda "Eu quero um filho seu", que teria sido uma tradução inspirada de "I want you, baby". Mas as últimas notícias revelam que os problemas de tradução estão com os dias contados: o Google Tradutor, segundo especialistas em inteligência artificial, deve economizar custos com tradução e cursos de línguas, além de evitar mal-entendidos entre falantes de idiomas diferentes.

A primeira vez que ouvi essa ideia a sério foi de um colega da malhação, engenheiro-geek-tecnológico com competências e curiosidades linguísticas, que me contou, olhos brilhando, sobre a matéria numa revista que explicava como já está bem desenvolvida a tecnologia de tradução automática. Hum, pensei, que propaganda esquisita!

É verdade que na localização de software, que consiste em traduzir e adaptar aplicativos pro mercado de destino, o uso da “máquina” já é uma realidade. Mas, das oito etapas do processo que conheço, adotado por uma das maiores empresas do setor, só uma é feita por um software, o que sugere que a tal da máquina depende totalmente dos tradutores de carne, osso e sensibilidade ao contexto.

Voltando à tecnologia da Google, resolvi testar as maravilhas ao alcance do nosso clique traduzindo páginas de ajuda do site da Microsoft do inglês pro português. Prá ter o melhor resultado, era essencial usar textos técnicos com função informativa, já que, segundo os especialistas, seria esse o âmbito ideal pro uso da tradução automática. Prá me aproximar o máximo possível da perspectiva do usuário que não lê inglês, pulei o original e fui direto prás traduções.

Diante dos resultados, comecei por desprezar os aspectos gramaticais, que os desenvolvedores reconhecem que ainda não foram incorporados pela tecnologia, me concentrando no âmbito puramente comunicativo, isto é, tentei depreender o que o usuário pode entender da leitura da tradução automática. Na primeira passada de olhos, notei que a tradução como um todo dava aquela “ideia geral” útil quando alguém quer saber do que um texto trata. Mas, quando fui prá análise dos parágrafos, o resultado foi tipo... Não digo ainda.

O primeiro texto cuja tradução testei foi o artigo “Going places with your netbook", algo como “Saindo por aí com seu netbook”, que ficou “Indo a lugares com o seu netbook” (publicado na página http://windows.microsoft.com/en-us/windows7/going-places-with-your-netbook). Embora um pouco esquisito, o título cumpriu seu papel, o que não foi o caso de vários parágrafos dele, um dos quais saiu assim:

Eu tenho usado um ordinário, netbook meio-de-estrada para o último ano e amá-lo. Leia mais e eu vou te dar a colher interna em netbooks, que são, por que há tanta agitação sobre eles, e que está na cópia fina.

Aqui o leitor entende que o autor está satisfeito com seu netbook (porque “amá-lo”), mas não entende o motivo, já que ele é "ordinário” e “meio-de-estrada”, o que não parece coisa boa. Só quem conhece o termo "ordinary" do inglês vai entender que se trata de um netbook comum (ou básico).

O autor parece satisfeito com seu netbook (“amá-lo”), mas não entendi o motivo, se ele é "ordinário” e “meio-de-estrada”, o que não sugere boa coisa. Já a “colher interna” me sugeriu a ideia de uma "colher de chá". Só depois que vi o original (“I'll give you the inside scoop”), entendi que a ideia era algo como “Vou mostrar prá vocês o mapa da mina”. E não é que era mesmo uma colher de chá! Depois achei que teria uma explicação sobre os netbooks (“que são”... o quê?), mas só soube que eles estão “na cópia fina".

Em outro parágrafo, entendi que o assunto é o tamanho do teclado do netbook, sendo 90% do tamanho completo um ponto doce, o que quer que isso signifique:

Algumas pessoas simplesmente não se sentirão confortáveis com um pequeno teclado. Meu teclado netbook é 90% de um teclado de tamanho completo, e para mim, esse é o ponto doce. Tipo I pode facilmente, sem erros mais do que o habitual. Mas, se você tem mãos pequenas ou estão comprando um para uma criança, eu ia ficar com esse tamanho, 90% ou próximo a ele. A melhor maneira de saber é procurar uma pessoa no computador, eletrônicos e lojas de materiais de escritório são um bom lugar para começar. (Eu mesmo vi modelos básicos em grandes lojas de brinquedo!)

Do trecho, compreendi que a melhor maneira de saber “é procurar uma pessoa no computador” e que “eletrônicos e lojas de material de escritório são um bom lugar para começar”. Desconfiei que se tratasse da procura por um netbook ou teclado, mas talvez o texto estivesse sugerindo procurar alguém prá testar o tamanho do teclado, embora essa dica fosse meio estranha.

Outro texto que usei no teste tinha como título “A new way to work with your PC” (publicado na página http://windows.microsoft.com/en-US/windows/discover/touch). O subtítulo “Um toque de diversão” me pareceu excelente em todos os sentidos: o parágrafo começou bem e a diversão veio logo em seguida:

Como você vai usar Windows Touch? É totalmente até você. Virtualmente qualquer programa que funciona com o Windows 7 agora responde ao seu toque. (Você pode até pintar no Paint dedo!) Nos próximos meses, à espera de ver ainda mais software finger-friendly. Bem, quem conhece a expressão inglesa “It’s up to you” não vai demorar a entender "É totalmente até você" como “Tudo depende de você”. Quem não lê, vai entender só a tradução da palavra “you” (“você”), que saiu direitinho.

Prosseguindo, não entendi o que seria o “Paint dedo!”, primeiro achei que se tratasse de um programa chamado "Paint Finger” ou “Finger Paint”. Mas como nunca tinha ouvido falar dele, fui lá no inglês e entendi que “Você pode até pintar no Paint dedo!” significa “Você pode até usar a ponta do dedo para pintar com o Paint!", o que mostra que depois do “Você pode até” tudo fica inteligível. A não ser, claro, prá quem já sabe o que é “finger-frindly”, caso em que a tradução não seria necessária.

O exemplo traz três ocorrências de “finger”, que a máquina "sabe” que significa "dedo", mas não sabe onde inserir, porque a sintaxe de cada frase é única e as possibilidades de combinação, por sua vez, são virtualmente infinitas. A ironia é que milhões de frases continuarão a ser armazenadas em dispositivos cada vez mais poderosos, mas, quanto maior o número de traduções de "dedo” armazenadas, maior a chance de a máquina não saber onde botar o dedo.

Bom, fui dar uma olhada no New York Times e acabei testando a tradução de um texto sobre as eleições em Myanmar. Mas quando vi que a frase que informa que “40 partidos estão inscritos para participar da eleição” foi traduzida como “40 partidos se registraram para ser executado”, achei que eu já estava bem de teste.

A foto é de uma página que não existe mais (deve ter sido executada): https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgbBKGAd4oQf3-7QUyrAFw5FTTNLErvuAJmTWge9Xz4G5v9IfATucuxHFvplpQO9l5ICE1FC4PMb8Tw9_geeNt29QgzqBz1s9ZHEhHMO_34rUUGg7mL1imix81HQD29puptsWykbtAR7s5B/s320/paredon.jpg.