domingo, 23 de janeiro de 2011

Só o analfabetismo salva (considerações sobre uma conta inregular)

“Foi contastato no nosso sistema que o seu cadastro encontra-se inregular; em virtude disso pedimos que regularize-a urgentemente sua conta! Evitando bloqueio da mesma.”

A mensagem entrava direto na minha caixa postal e, como tenho medo de ficar em débito com o terra, porque o provedor prefere cortar o serviço a me avisar sobre qualquer problema, fui verificar do que se tratava.

Cliquei no link, que me levou pro site do terra, me loguei no e-mail e ele pediu prá atualizar a data de vencimento e prá definir o tipo de pagamento, cliquei em “Cartão de crédito”, mas fiquei com preguiça de levantar da cama prá pegar o cartão e deixei o resto para depois.

Claro
que não deixei de notar a meia dúzia de erros de redação em duas linhas, mas não cheguei a estranhar. Minha frequência às mais diversas salas de aula ao longo de 20 anos me vacinou contra qualquer estranhamento. Mas mesmo assim não deixei de ficar perturbada, achei triste que um provedor de grande porte achasse normal mandar uma mensagem com esse grau de analfabetismo.

De repente, caíram todas as fichas de uma vez: a mensagem com as cores, os links, a logo e o design do terra era de phishing, scam, spyware de “impersonificação” (esbarrei nesse termo medonho várias vezes) ou, em vernáculo, de roubo de identidade! Escrevi pro terra e tive a confirmação de que se tratava de “golpe on-line”.

Respirei por não ter inserido dados do cartão, porque alguém do provedor me respondeu (e não é que ela escreve direitinho!) e pelo fato do analfabetismo não ser de ninguém do terra.

De toda forma, ainda me pareceu assustador que uma quadrilha de gente com tantos conhecimentos de design, programação em html/php e banco de dados não tenha ninguém que saiba escrever um bilhete, nem que desconfie que a língua usada naquela mensagem é muito estranha!

Claro que sei que muito estranha e desconhecida é a língua escrita prá tanta gente no nosso país, que também nem desconfia que professores com salários de fome não têm como ajudar muito a esse respeito.

Mas, como tudo tem um lado bom, posso dizer que fui salva do golpe pela preguiça e pelo analfabetismo funcional.

ps: não sei por que aquele "Central Terra solução" me parece muito uma tradução automática, mas isso só pode ser uma ideia fixa.

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

O Ministério de Saúde deveria advertir que ser consumidor causa envelhecimento precoce da pele

Alguém deveria pesquisar o impacto de ser consumidor sobre a saúde do cidadão, tenho praticamente certeza de que as atividades diárias do consumidor devem matar aos poucos ou pelo menos prejudicar muito a pele.

Hoje acordei na pilha de resolver pendências enquanto o feriadão das agências de tradução me permite respirar e a primeira providência foi tentar colocar a conta de gás no débito automático, mas a moça da CEG me recomendou ligar pro banco, disse ela que cadastrar no banco seria “muito mais confiável”. Já a atendente do banco me disse que, como eu cancelei o débito automático em outra conta corrente há pouco tempo, tenho que esperar vir a próxima conta, pagar, prá só depois cadastrar o débito em outra conta. Então tá, claro que o sistema não pode permitir tudo que a gente quer.

O passo seguinte consistia em tentar que o suporte técnico da Dell instalasse, ou me dissesse como instalar, um pacote do Office que comprei junto com o computador, mas que “expirou” em menos de um mês e entra em looping pedindo a chave do produto que já inseri n vezes.

Depois de algumas semanas recebendo respostas do suporte supostamente técnico como “Obrigado pelo seu recente contato com o Suporte Técnico Dell em 12/23/2010 (sic) 08:48:13 AM (sic)”, “Apreciamos a oportunidade de trabalhar com você para ajudar a garantir que conitnue (sic) aproveitando ao máximo seu equipamento Dell”, “Podem verificar a solicitação do cliente? O mesmo (sic) nos lê em cópia.”, resolvi ligar prá eles porque o computador também tinha resolvido não ligar, o que já tinha acontecido outras duas vezes.

Algum tempo no telefone e a sugestão mais razoável foi a de que eu mandasse o Zino HD pelo correio pro suporte em São Paulo. Não vou contar detalhes porque demorou algumas horas entre o primeiro telefonema e a finalização com êxito do despacho (incluindo a busca pelo plástico-bolha na Voluntários, debaixo de um calorzinho de matar, o que já não é culpa de nenhuma empresa). Agora é só esperar prá saber em quanto tempo recebo o equipamento de volta com o Office instalado e ligando normalmente, o que talvez seja uma expectativa meio absurda.


Resolvido isso, peguei a bike e fui ao Escada Shopping tentar trocar a lente de contato do olho esquerdo, que rasgou quando usei pela terceira vez. Não, ela não é descartável (antes fosse), custou quase 900 reais e deveria durar 1 ano. Fui informada de que teria que falar com a vendedora, que já tinha ido, ela trabalha das 10 às 16, e a essa altura já eram quase 5 da tarde. Certo, amanhã tento de novo, mais cedo.

Bom, hoje não tenho direito a nenhum cigarro, meu ombro está com umas erupções esquisitas e o lado direito do rosto também, vou aplicar a pomadinha dermatológica e torcer prá que minhas atividades de consumidora só danifiquem a pele, mas não causem impotência sexual.

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Eu não consigo relaxar (ou Uga-buga nas traduções do jornal)

Fim de tarde de sábado no posto 12, solzinho gostoso, quando um amigo comenta: "Ai, que bom não fazer nada". Respondi que eu “adoraria não fazer nada, mas não consigo ler jornal sem revisar”.

Reconheço a neurose: assim como o menino do ônibus, que poderia estar roubando, poderia estar matando, eu poderia estar simplesmente vendo a vista, os belos espécimens que dizem que tinha por ali, mas eu tentava insistentemente ler um jornal nervoso no vento do mar.

Não lembro o que me irritava naquele momento, mas, ontem à noite, jantando uma sopinha depois de um finde de orgia alimentícia, tentava eu ler no Mundo a tradução de um texto de um ativista do Greenpeace inglês quando me deparei com o seguinte trecho:

"Enquanto isso o domínio das companhias de carvão e petróleo sobre a política americana, asseguram que os EUA não conseguirão competir. E isso nos trás o último grande jogador em Cancún - o Grande Carbono."


Empaquei. Ignorando de cara o “Isso nos trás”, total e perfeitamente inteligível, pensei: Como assim “o domínio asseguram”? Não, o domínio não asseguram nada, se fosse isso não teria uma vírgula no meio do caminho. Então seria "as companhias asseguram"? Também não pode ser, por que como as companhias de carvão e petróleo poderiam assegurar algo que é contra o interesse delas?


Claro que isso só pode ser má vontade, implicância de quem não tem mais o que fazer, todo mundo deve ler a frase e entender direitinho do que se trata, só eu preciso voltar, tentar arrumar a sintaxe prá saber quem assegura o quê.

Em vez de comer a sopinha vendo as fotos de uma revista, uma novela ou, sei lá, só comer a sopinha, a pessoa não para de revisar. Mas entender prá quê, se o que importa é que no futuro vai tudo aquecer mesmo e não vai ter mais areia da praia prá gente deitar quando enfim resolver não fazer nada? Espero que pelo menos a sopinha ainda me seja assegurada.

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Alice’s Adventures in WonderWords

"Não pode viver a vida prá agradar os outros
A escolha tem que ser sua
Porque quando for encontrar aquela criatura
Terá que ir sozinha"

Essa fala, com ritmo de poema e naturalidade de prosa humana, é da Rainha Branca, vivida pela chique Anne Hathaway (que achei que tivesse sido dublada em português pela também chique e linda Angélica Borges, minha amiga Anjinha, mas fui informada por ela que foi pela igualmente talentosa Mabel César), na cena em que Alice pondera se aceitará o desafio de empunhar a espada contra o Jaguadarte, monstro que garante a tirania da Rainha Vermelha.

Não sei quando começou meu caso com Alice. Lembro de ter lido as Alices da Penguin Classics, de ter ganhado a edição comentada de Martin Gardner, com as ilustrações originais de John Tenniel (eu pedi!), de ter me apaixonado pela tradução do Sebastião Uchoa Leite, de ter flertado com a Lógica do sentido (Deleuze se apaixonou por Alice bem antes), de ter sido apelidada de Coelho Branco por uma aluna que notou que eu dizia sempre “estou atrasada!” (Tínhamos que ler a Alice em duas aulas!)

Se não chego a ser especialista em Alice, sem dúvida sou uma grande amadora, por isso tinha medo de ver a do Tim Burton, que eu sabia que era uma adaptação. E depois de o filme alugado ter passado três dias aqui em casa sem que eu conseguisse ver, resolvi enfrentar a versão dublada, a única disponível no PPV da Net e, logo na primeira cena, em que Alice desafia a mãe com palavras que soam muito verdadeiras, percebi o quanto ia me maravilhar.

Como os diálogos fluíam naturalmente, com ritmo de conversa humana, a verossimilhança se instalou imediatamente: apesar de anotar umas falas, em nenhum momento fiquei tentada a identificar o original de alguma delas. Quem é tradutor sabe que, em geral, a gente não vê um filme traduzido e/ou dublado em paz: a escolha das palavras geralmente grita, e o que era prá ser relax vira irritação.

Entre os fatores responsáveis pela fluência das falas, reparei no uso dos demonstrativos com “ss” (isso, esse, essa), em vez dos esquisitos com “st” (isto, este, esta), que alguém inventou que são certos em determinadas circunstâncias, mas que ninguém que eu conheça fala.

Também notei o uso do imperativo de terceira pessoa, o único existente no português falado no Brasil. Talvez alguém incorporado de Napoleão diga “Pegue uma água prá mim”, mas falantes brasileiros em sã consciência só dizem “Pega uma água prá mim” (com ou sem “por favor”), o que faz todo sentido, já que no Rio usamos o tratamento “você” (seguindo o “ele pega”, da terceira pessoa do indicativo), e não o “tu” (conforme o “que tu pegues”, segunda do subjuntivo menos o “s”).

A escolha do pronome do caso reto em lugar do oblíquo em muitos casos, só usado na escrita, também foi feliz. A Rainha Vermelha grita “Cortem-lhe a cabeça” (além de “Cortem as cabeças”, “Corte a cabeça”, uma inconsistência inconcebível na cabeça de muita gente), mas também “Ignorem ele, é maluco” (ou seria “Ignorem, ele é maluco”?), se referindo ao chapeleiro, e “Se estiverem escondendo ela, perderão a cabeça”. Parece claro que falas como “Ignorem-no” e “Se a estiverem escondendo” não seriam de gente, não de gente que eu conheça.

Por último, e talvez mais importante, é notável o uso natural da próclise, geralmente evitada por quem tem medo de errar, preferindo escrever e fazer com que personagens falem uma língua inexistente e irreconhecível. Assim, essa Alice traduzida e legendada surge mais humana quando diz “Me desculpe” (e não "Desculpe-me", como diria uma Alice lusitana).

Por sua força e por sua língua, essa Alice, do Tim Burton, mas também de tradutores e dubladores que não conheço, não é só a Chapeuzinho Vermelho que perde a inocência depois de se perder na floresta, nem só a Bela que doma a Fera pela delicadeza, nem só a anticinderela que toma as rédeas do próprio destino ("Eu faço o meu destino", ela diz), nem só a Joana D’Arc que enfrenta a morte, nem só todos os heróis que a vencem com uma espada. Alice c’est moi.

"Às vezes eu esqueço que tudo isso é um sonho".

terça-feira, 26 de outubro de 2010

We are not starving (ou sobre taxas)

Tenho montes de coisas prá fazer, mas a indignação me trouxe aqui.

De uns tempos prá cá tenho recebido mensagens constantes de uma empresa de tradução de Nova Iorque, que busca rápida e desesperadamente um tradutor ou revisor pelo amor de deus para uma tarefa de urgência. Seria totalmente normal, como vocês sabem, se a (não) dita empresa não se recusasse a informar as taxas a ser pagas pelo trabalho.

Ora, ou bem se acorda uma taxa prá ser usada em todos os trabalhos, ou bem se informa a taxa daquele trabalho específico, essa é a prática logicamente razoável. Alguém por acaso chama uma faxineira sem dizer quanto vai pagar a ela?

Como a mensagem é coletiva (ou "em massa", essa tradução que parece ter a ver com macarrão), só posso concluir que a ideia é que algum tradutor desesperado por trabalho tope uma coisa dessas, imaginando que será razoável (ou minimamente) pago e/ou que poderá começar a trabalhar prá tal empresa. Mas só alguém bem bobinho pode pensar assim, porque óbvio está que a ideia é pegar o primeiro tradutor desesperado por trabalho e pagar a pior taxa possível.

Eu poderia ignorar essas mensagens, seria provavelmente mais lucrativo, já que palavra é dinheiro, como sabemos (ó, acabei de receber outra!), mas acho que cada um tem sua responsabilidade quando uma classe de profissionais passa a participar de leilões por mão-de-obra mais barata a cada dia (e isso fora dos sites de leilões de preços).

Daí que numa das primeiras vezes respondi isso:

Hello K. and Cete,

Thank you for your very kind e-mail, the instructions seem to be quite clear.

The problem is that we have never agreed to translation/review rates, and xixixiCompany is getting well known in our market for using very low fees. I have been using a proofreading/editing rate of USD xixixi per word, can you please let me know if this is acceptable for your company? If so, we will be able to start a parnership and I can help with this task. Please let me know.

Agora já colo direto essa frase, seguida de Thanks and best regards:

I am sorry, but I will not be able to accept any job from xixixiCompany if you never inform what the translation rates to be used are (nor have any interest in talking about it). This is generally considered a bad practice.

Se querem me mandar spam de leilão, pelo menos vão ter que receber o meu também. E acho que todo mundo que recebe essas mensagens deveria criar uma linhazinha prá mandar prá eles também.

Em tempo, a referida xixixiCompany está entre as 10 primeiras empresas da lista das maiores do mundo e entre as 5 da lista das que crescem mais rápido. Assim é molé, né não?

domingo, 17 de outubro de 2010

Cocaína, DST e outros perigos

Como não tenho tido tempo de escrever, colo aí os comentários sobre o artiguinho lá da Digital, primeiro porque tem um elogio da Dani, e eu sou vaidosa:

1. danielle marins
04/10/2010 - 14h 40m
Adorei, Claudinha! O bom humor e a competencia de sempre.
Dani Soares

Segundo porque achei perigosa essa coisa de encontrar cocaína que o Andre conta:

2. Andre Luiz Duarte de Queiroz
04/10/2010 - 11h 57m
Enquanto as traduções automáticas não incluírem algum mecanismo de análise semântica minimamente eficiente, esse tipo de bobagem das traduções automáticas vai continuar. Eu mesmo, faço uso constante de traduções automáticas on-line, e sempre tenho que conferir que 'met coke' (coque metalúrgico) não seja traduzido como "encontrar cocaína"!

Falando nisso e também porque hoje começou nosso horário de verão, lembrei que outra coisa perigosa é a tal da DST, tradução que encontrei uma vez. O original também era DST, mas tinha a explicação entre parênteses "Daylight Saving Time".

Verdade seja dita: não sei se a DST veio da máquina ou do editor (eu estava pós-editando o arquivo e sou limpinha): à máquina o que é da máquina, e à pessoa o que é dela. O fato é que a Doença Sexualmente Transmissível estava lá, totalmente consistente e ameaçando os arquivos todos da megaempresa de tecnologia dona deles.

Nesse caso, seria preferível ter deixado o "Luz do Dia Salva Tempo" entre parênteses, que parece nome de igreja, mas... Ih, nem sei, hoje em dia a gente nem sabe o que é mais perigoso.