terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Eu não consigo relaxar (ou Uga-buga nas traduções do jornal)

Fim de tarde de sábado no posto 12, solzinho gostoso, quando um amigo comenta: "Ai, que bom não fazer nada". Respondi que eu “adoraria não fazer nada, mas não consigo ler jornal sem revisar”.

Reconheço a neurose: assim como o menino do ônibus, que poderia estar roubando, poderia estar matando, eu poderia estar simplesmente vendo a vista, os belos espécimens que dizem que tinha por ali, mas eu tentava insistentemente ler um jornal nervoso no vento do mar.

Não lembro o que me irritava naquele momento, mas, ontem à noite, jantando uma sopinha depois de um finde de orgia alimentícia, tentava eu ler no Mundo a tradução de um texto de um ativista do Greenpeace inglês quando me deparei com o seguinte trecho:

"Enquanto isso o domínio das companhias de carvão e petróleo sobre a política americana, asseguram que os EUA não conseguirão competir. E isso nos trás o último grande jogador em Cancún - o Grande Carbono."


Empaquei. Ignorando de cara o “Isso nos trás”, total e perfeitamente inteligível, pensei: Como assim “o domínio asseguram”? Não, o domínio não asseguram nada, se fosse isso não teria uma vírgula no meio do caminho. Então seria "as companhias asseguram"? Também não pode ser, por que como as companhias de carvão e petróleo poderiam assegurar algo que é contra o interesse delas?


Claro que isso só pode ser má vontade, implicância de quem não tem mais o que fazer, todo mundo deve ler a frase e entender direitinho do que se trata, só eu preciso voltar, tentar arrumar a sintaxe prá saber quem assegura o quê.

Em vez de comer a sopinha vendo as fotos de uma revista, uma novela ou, sei lá, só comer a sopinha, a pessoa não para de revisar. Mas entender prá quê, se o que importa é que no futuro vai tudo aquecer mesmo e não vai ter mais areia da praia prá gente deitar quando enfim resolver não fazer nada? Espero que pelo menos a sopinha ainda me seja assegurada.

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Alice’s Adventures in WonderWords

"Não pode viver a vida prá agradar os outros
A escolha tem que ser sua
Porque quando for encontrar aquela criatura
Terá que ir sozinha"

Essa fala, com ritmo de poema e naturalidade de prosa humana, é da Rainha Branca, vivida pela chique Anne Hathaway (que achei que tivesse sido dublada em português pela também chique e linda Angélica Borges, minha amiga Anjinha, mas fui informada por ela que foi pela igualmente talentosa Mabel César), na cena em que Alice pondera se aceitará o desafio de empunhar a espada contra o Jaguadarte, monstro que garante a tirania da Rainha Vermelha.

Não sei quando começou meu caso com Alice. Lembro de ter lido as Alices da Penguin Classics, de ter ganhado a edição comentada de Martin Gardner, com as ilustrações originais de John Tenniel (eu pedi!), de ter me apaixonado pela tradução do Sebastião Uchoa Leite, de ter flertado com a Lógica do sentido (Deleuze se apaixonou por Alice bem antes), de ter sido apelidada de Coelho Branco por uma aluna que notou que eu dizia sempre “estou atrasada!” (Tínhamos que ler a Alice em duas aulas!)

Se não chego a ser especialista em Alice, sem dúvida sou uma grande amadora, por isso tinha medo de ver a do Tim Burton, que eu sabia que era uma adaptação. E depois de o filme alugado ter passado três dias aqui em casa sem que eu conseguisse ver, resolvi enfrentar a versão dublada, a única disponível no PPV da Net e, logo na primeira cena, em que Alice desafia a mãe com palavras que soam muito verdadeiras, percebi o quanto ia me maravilhar.

Como os diálogos fluíam naturalmente, com ritmo de conversa humana, a verossimilhança se instalou imediatamente: apesar de anotar umas falas, em nenhum momento fiquei tentada a identificar o original de alguma delas. Quem é tradutor sabe que, em geral, a gente não um filme traduzido e/ou dublado em paz: a escolha das palavras geralmente grita, e o que era prá ser relax vira irritação.

Entre os fatores responsáveis pela fluência das falas, reparei no uso dos demonstrativos com “ss” (isso, esse, essa), em vez dos esquisitos com “st” (isto, este, esta), que alguém inventou que são certos em determinadas circunstâncias, mas que ninguém que eu conheça fala.

Também notei o uso do imperativo de terceira pessoa, o único existente no português falado no Brasil. Talvez alguém incorporado de Napoleão diga “Pegue uma água prá mim”, mas falantes brasileiros emconsciência dizem “Pega uma água prá mim” (com ou sempor favor”), o que faz todo sentido, que no Rio usamos o tratamentovocê” (seguindo o “ele pega”, da terceira pessoa do indicativo), e não o “tu” (conforme o “que tu pegues”, segunda do subjuntivo menos o “s”).

A escolha do pronome do caso reto em lugar do oblíquo em muitos casos, usado na escrita, também foi feliz. A Rainha Vermelha grita “Cortem-lhe a cabeça” (além de “Cortem as cabeças”, “Corte a cabeça”, uma inconsistência inconcebível na cabeça de muita gente), mas também “Ignorem ele, é maluco” (ou seria “Ignorem, ele é maluco”?), se referindo ao chapeleiro, e “Se estiverem escondendo ela, perderão a cabeça”. Parece claro que falas como “Ignorem-no” e “Se a estiverem escondendo” não seriam de gente, não de gente que eu conheça.

Por último, e talvez mais importante, é notável o uso natural da próclise, geralmente evitada por quem tem medo de errar, preferindo escrever e fazer com que personagens falem uma língua inexistente e irreconhecível. Assim, essa Alice traduzida e legendada surge mais humana quando diz “Me desculpe” (e não "Desculpe-me", como diria uma Alice lusitana).

Por sua força e por sua língua, essa Alice, do Tim Burton, mas também de tradutores e dubladores que não conheço, não é a Chapeuzinho Vermelho que perde a inocência depois de se perder na floresta, nem a Bela que doma a Fera pela delicadeza, nem a anticinderela que toma as rédeas do próprio destino ("Eu faço o meu destino", ela diz), nem a Joana D’Arc que enfrenta a morte, nem todos os heróis que a vencem com uma espada. Alice c’est moi.

"Às vezes eu esqueço que tudo isso é um sonho".

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

A presidente(a), o gênero e o sexo das palavras (e dos anjos)

Ele é sempre assustador, mas o moralismo linguístico é dos piores, porque se apresenta como saber incontestável.

A coluna do Aziz Ahmed do Jornal do Commercio de hoje (eu não assino, mas eles me mandam na esperança...) tem uma nota com o título “É presidenta”, que traz depoimento do professor Nilson Damasceno explicando por que o feminino deve ser usado: além do Aurélio e do VOLP, o Houaiss “mantém o entendimento de que presidenta é feminino de presidente e registra como sua primeira acepção: ‘mulher que se elege para a presidência de um país'”.

Até aí morreu Neves atolado no cuspe, ou no cuspo, palavra que o Houaiss também registra, mas nem por isso tenho que preferir. O fato é que o termo “presidente” está lá como n substantivo de dois gêneros e n adjetivo de dois gêneros, assim como “doente”, “cliente”, “vidente” e outras tantas palavras que não são do gênero masculino, o que parece complicado só porque tem muito mais palavras femininas e masculinas do que de dois gêneros na nossa língua.

No caso de “presidenta”, os dicionários só fizerem o serviço deles quando registraram o uso existente na boca de um número significativo de falantes. Mas a coisa se complica pelo fato de que durante muito tempo só houve presidentes do sexo masculino e também, claro, pela justificada confusão entre gênero e sexo.

Categoria gramatical, o gênero nada tem a ver nem com xibiu nem com piupiu: “cadeira” e “mesa” não são do sexo feminino, da mesma forma que “aspirador” e “refrigerador” não são do sexo masculino. Um curioso pode revirar essas coisas por todos os lados que não vai encontrar sexo nenhum, pelo menos não neste mundo nosso. Ou seja, as palavras, como os anjos, não têm sexo, assim como as pessoas não têm gênero (nem quando fazem gênero).

Daí que “presidente” nem é palavra do gênero masculino, nem precisa ser usada exclusivamente para pessoas do sexo masculino.

De toda forma, entendo quem prefira usar a forma feminina da palavra para ressaltar a conquista feminina, já eu considero que “presidente” é todo cidadão eleito para o cargo, independentemente de sexo, e acho importante usar a mesma palavra para marcar o caráter de igualdade entre os sexos. E ainda rio da possibilidade de escolha para elas, mas não para eles.

Em suma, se os dicionários registram tanto o substantivo de dois gêneros (o presidente/a presidente) quanto o feminino (a presidenta), só há problema para quem quer que só haja uma possibilidade.

E em tempo: Buck Angel, a mesma pessoa nas fotos da direita e da esquerda, tem sexo feminino, mas não tem gênero porque não é palavra, como, aliás, qualquer outra pessoa. O resto é confusão que não vale a pena. O site oficial de Buck  é esse: http://www.buckangel.com/index.html, que delícia!

terça-feira, 26 de outubro de 2010

We are not starving (ou sobre taxas)

Tenho montes de coisas prá fazer, mas a indignação me trouxe aqui.

De uns tempos prá cá tenho recebido mensagens constantes de uma empresa de tradução de Nova Iorque, que busca rápida e desesperadamente um tradutor ou revisor pelo amor de deus para uma tarefa de urgência. Seria totalmente normal, como vocês sabem, se a (não) dita empresa não se recusasse a informar as taxas a ser pagas pelo trabalho.

Ora, ou bem se acorda uma taxa prá ser usada em todos os trabalhos, ou bem se informa a taxa daquele trabalho específico, essa é a prática logicamente razoável. Alguém por acaso chama uma faxineira sem dizer quanto vai pagar a ela?

Como a mensagem é coletiva (ou "em massa", essa tradução que parece ter a ver com macarrão), só posso concluir que a ideia é que algum tradutor desesperado por trabalho tope uma coisa dessas, imaginando que será razoável (ou minimamente) pago e/ou que poderá começar a trabalhar prá tal empresa. Mas só alguém bem bobinho pode pensar assim, porque óbvio está que a ideia é pegar o primeiro tradutor desesperado por trabalho e pagar a pior taxa possível.

Eu poderia ignorar essas mensagens, seria provavelmente mais lucrativo, já que palavra é dinheiro, como sabemos (ó, acabei de receber outra!), mas acho que cada um tem sua responsabilidade quando uma classe de profissionais passa a participar de leilões por mão-de-obra mais barata a cada dia (e isso fora dos sites de leilões de preços).

Daí que numa das primeiras vezes respondi isso:

Hello K. and Cete,

Thank you for your very kind e-mail, the instructions seem to be quite clear.

The problem is that we have never agreed to translation/review rates, and xixixiCompany is getting well known in our market for using very low fees. I have been using a proofreading/editing rate of USD xixixi per word, can you please let me know if this is acceptable for your company? If so, we will be able to start a parnership and I can help with this task. Please let me know.

Agora já colo direto essa frase, seguida de Thanks and best regards:

I am sorry, but I will not be able to accept any job from xixixiCompany if you never inform what the translation rates to be used are (nor have any interest in talking about it). This is generally considered a bad practice.

Se querem me mandar spam de leilão, pelo menos vão ter que receber o meu também. E acho que todo mundo que recebe essas mensagens deveria criar uma linhazinha prá mandar prá eles também.

Em tempo, a referida xixixiCompany está entre as 10 primeiras empresas da lista das maiores do mundo e entre as 5 da lista das que crescem mais rápido. Assim é molé, né não?

domingo, 17 de outubro de 2010

Cocaína, DST e outros perigos

Como não tenho tido tempo de escrever, colo aí os comentários sobre o artiguinho lá da Digital, primeiro porque tem um elogio da Dani, e eu sou vaidosa:

1. danielle marins
04/10/2010 - 14h 40m
Adorei, Claudinha! O bom humor e a competencia de sempre.
Dani Soares

Segundo porque achei perigosa essa coisa de encontrar cocaína que o Andre conta:

2. Andre Luiz Duarte de Queiroz
04/10/2010 - 11h 57m
Enquanto as traduções automáticas não incluírem algum mecanismo de análise semântica minimamente eficiente, esse tipo de bobagem das traduções automáticas vai continuar. Eu mesmo, faço uso constante de traduções automáticas on-line, e sempre tenho que conferir que 'met coke' (coque metalúrgico) não seja traduzido como "encontrar cocaína"!

Falando nisso e também porque hoje começou nosso horário de verão, lembrei que outra coisa perigosa é a tal da DST, tradução que encontrei uma vez. O original também era DST, mas tinha a explicação entre parênteses "Daylight Saving Time".

Verdade seja dita: não sei se a DST veio da máquina ou do editor (eu estava pós-editando o arquivo e sou limpinha): à máquina o que é da máquina, e à pessoa o que é dela. O fato é que a Doença Sexualmente Transmissível estava lá, totalmente consistente e ameaçando os arquivos todos da megaempresa de tecnologia dona deles.

Nesse caso, seria preferível ter deixado o "Luz do Dia Salva Tempo" entre parênteses, que parece nome de igreja, mas... Ih, nem sei, hoje em dia a gente nem sabe o que é mais perigoso.

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Testando o Google Tradutor (versão compacta publicada na Digital)

Quem não teve tempo e paciência (ativos cada vez mais raros) prá ler a versão maiorzinha que botei aqui no mês passado, pode ver nesse link a versão compacta: http://oglobo.globo.com/tecnologia/mat/2010/10/04/testando-google-tradutor-922694261.asp

Gostei que não mexeram em quase nada, quase que  mesmo em todos os meus "prá", que viraram "para", como eu imaginava... Bom, eu gosto do "prá" e do "pro", usados por todo mundo que fala português e devidamente registrados no Houaiss, como os dicionários devem fazer. Colo , prá quem não acredita:

pro
1
contração
Uso: informal.
da prep. para e o artigo o
Ex.: <este ônibus vai p. centro> <telefonar p. Alberto>
2 da prep. para e o pronome demonstrativo o ('aquele', 'aquilo'); para aquele, para aquilo
Ex.: <deram o prêmio p. que fez a frase mais original> <não ligue p. que ele falou>

pra
preposição
Uso: informal.
m.q. para
Ex.: <vem p. , menino> <esse presente é p. mim?>

prá

preposição
Uso: informal.
m.q. para
Ex.: <vem p. , menino> <esse presente é p. mim?>

Mas também entendo que, prá evitar que digam que a língua está sendo destruída, como se a contração preposicional degenerasse mais do que a eleição do Tiririca, e como se a evolução não fosse inevitável e peremptória na boca e no papel todos os dias, se opte pelo formal em vez de pelo informal (embora o tom da publicação seja totalmente informal).

Como dizia a minha bisavó: mais vale um gosto que um desgosto e o que é de gosto regala a vida. E assim não gritam os possíveis indignados, que indignação é igual ao que se sabe, cada um tem a sua.

domingo, 12 de setembro de 2010

Caetano mira a ênclise e quase acerta a próclise

Quem me conhece sabe que não sou de livrar a cara de tradutor sem noção ─ muito pelo contrário ─ embora a falta de noção não seja coisa só de tradutor. Mas vou ter que dizer que ênclises estranhas não são exclusividade dos tradutores. Todo dia (isso, eu não descanso!) vejo por aí um monte de ênclises esquisitas, nos jornais, nos sites moderninhos, nas campanhas de marketeiros fashion, nas sentenças judiciais de supostos eruditos, etc.

Durante os 8 anos em que tive uns 500 alunos de graduação por semestre, comprovei a hipótese de que as pessoas fazem ênclises medonhas porque foram doutrinadas a abominar as próclises. O horror, o horror! do professor secundário (absolvamos o primário) não era o analfabetismo, eram as próclises. Em turmas graduadas já tive que ler citações de nomes célebres do século 19 (lusitanos e brasileiros), na tentativa de convencer os candidatos a magistrados ─ uma elite que concluiu o curso de Direito e pode se dedicar a estudar para a magistratura estadual ─ de que a “próclise facultativa" não é crime gramatical, mas antes perfeição do Português do Brasil que, embora alguns ignorem, é a nossa língua.

Mas se a próclise é facultativa em todos os casos (menos em início de oração e, mesmo assim, só na escrita formal culta), por que se multiplicam ênclises abomináveis? Não vejo outro motivo ao não ser o fato de que, quando mencionavam a "próclise facultativa", nossos professores sugeriam que estavam gentilmente nos dando uma autorização para errar a nosso próprio risco, já que a preferência do português lusitano seria a ênclise, o que é só um quinto da verdade, já que há todos aqueles casos em que até os portugas da aldeia ─ como o meu avô que pouco conheci ─ a fazem naturalmente, como em “quando-se trata, como-se viu, que-se sabe, hoje-se diz, não-me conta, embora-se diga, tanto-se fala, isso-lhe apraz, etc (claro que os hifens aqui indicam a tonicidade, não a regra da escrita).

E que poder absurdo era esse o dos professores que, embora muitas vezes não conseguissem que muitos alunos lessem um só livro, conseguiam incutir em tantas mentes tamanho medo da próclise? Só o totalitarismo explica.

Assim, se com os futuros a ênclise não pode ser (nem em Portugal, nem no Brasil, nem na caixa-prego) e a próclise é um monstro abominável, a alternativa seria a mesóclise, que ressurge das cinzas na coluna de hoje de Caetano, embora o compositor sugira, de passagem, que a ênclise seja uma possibilidade. Diz ele:

"Mas os italianos – dos poucos ocidentais a não fazerem o plural com ‘s’ que, suponho, veio do acusativo romano – espantar-se-iam com o fato de uma palavra que já tem dois esses (...) os italianos, dizia, achariam absurdo fazer um plural com 's' numa palavra já com esses demais".

Mas por que não escrever “os italianos se espantariam”, tipo língua de gente? Talvez porque haja um travessão ali, antes do qual vem o sujeito, e saberão os deuses (será?) que regra pode haver condenando a próclise nessas situações!

Como os casos de próclise obrigatória (por motivos de tonicidade lusitana e também brasileira) são muitos (que falante saudável decora aquela lista de conjunções subordinativas e integrantes, pronomes relativos, demonstrativos, alguns advérbios, etc?) e os casos de próclise facultativa são todos, costumo fazer e recomendar o seguinte: na dúvida, vá de próclise (exceto em início de oração), que não há chance de erro.

Uma vez escrevi isso num manual de estilo para tradutores, mas minha chefe na época achou esquisito e mandou tirar. Numa outra vez, um aluno da escola da magistratura me perguntou surpreso: mas por que nunca ninguém me disse isso? Respondi que parece que tem muita coisa que não contam.

Em tempo: se você é tradutor, recomendo cautela ao usar a próclise para não ganhar um fail. Os avaliadores devem ter sido ótimos alunos, porque costumam ter ódio à próclise.

Em tempo2: Caetano já fez bastante de levantar a questão, resta que os escrevedores façam o dever de casa.

sábado, 11 de setembro de 2010

Testando o Google Tradutor (ou Seremos todos executados?)

Erros de tradução costumam ser motivo de boas gargalhadas. Alguns são mitos, como a legenda "Eu quero um filho seu", que teria sido uma tradução inspirada de "I want you, baby". Mas as últimas notícias revelam que os problemas de tradução estão com os dias contados: o Google Tradutor, segundo especialistas em inteligência artificial, deve economizar custos com tradução e cursos de línguas, além de evitar mal-entendidos entre falantes de idiomas diferentes.

A primeira vez que ouvi essa ideia a sério foi de um colega da malhação, engenheiro-geek-tecnológico com competências e curiosidades linguísticas, que me contou, olhos brilhando, sobre a matéria numa revista que explicava como já está bem desenvolvida a tecnologia de tradução automática. Hum, pensei, que propaganda esquisita!

É verdade que na localização de software, que consiste em traduzir e adaptar aplicativos pro mercado de destino, o uso da “máquina” já é uma realidade. Mas, das oito etapas do processo que conheço, adotado por uma das maiores empresas do setor, só uma é feita por um software, o que sugere que a tal da máquina depende totalmente dos tradutores de carne, osso e sensibilidade ao contexto.

Voltando à tecnologia da Google, resolvi testar as maravilhas ao alcance do nosso clique traduzindo páginas de ajuda do site da Microsoft do inglês pro português. Prá ter o melhor resultado, era essencial usar textos técnicos com função informativa, já que, segundo os especialistas, seria esse o âmbito ideal pro uso da tradução automática. Prá me aproximar o máximo possível da perspectiva do usuário que não lê inglês, pulei o original e fui direto prás traduções.

Diante dos resultados, comecei por desprezar os aspectos gramaticais, que os desenvolvedores reconhecem que ainda não foram incorporados pela tecnologia, me concentrando no âmbito puramente comunicativo, isto é, tentei depreender o que o usuário pode entender da leitura da tradução automática. Na primeira passada de olhos, notei que a tradução como um todo dava aquela “ideia geral” útil quando alguém quer saber do que um texto trata. Mas, quando fui prá análise dos parágrafos, o resultado foi tipo... Não digo ainda.

O primeiro texto cuja tradução testei foi o artigo “Going places with your netbook", algo como “Saindo por aí com seu netbook”, que ficou “Indo a lugares com o seu netbook” (publicado na página http://windows.microsoft.com/en-us/windows7/going-places-with-your-netbook). Embora um pouco esquisito, o título cumpriu seu papel, o que não foi o caso de vários parágrafos dele, um dos quais saiu assim:

Eu tenho usado um ordinário, netbook meio-de-estrada para o último ano e amá-lo. Leia mais e eu vou te dar a colher interna em netbooks, que são, por que há tanta agitação sobre eles, e que está na cópia fina.

Aqui o leitor entende que o autor está satisfeito com seu netbook (porque “amá-lo”), mas não entende o motivo, já que ele é "ordinário” e “meio-de-estrada”, o que não parece coisa boa. Só quem conhece o termo "ordinary" do inglês vai entender que se trata de um netbook comum (ou básico).

O autor parece satisfeito com seu netbook (“amá-lo”), mas não entendi o motivo, se ele é "ordinário” e “meio-de-estrada”, o que não sugere boa coisa. Já a “colher interna” me sugeriu a ideia de uma "colher de chá". Só depois que vi o original (“I'll give you the inside scoop”), entendi que a ideia era algo como “Vou mostrar prá vocês o mapa da mina”. E não é que era mesmo uma colher de chá! Depois achei que teria uma explicação sobre os netbooks (“que são”... o quê?), mas só soube que eles estão “na cópia fina".

Em outro parágrafo, entendi que o assunto é o tamanho do teclado do netbook, sendo 90% do tamanho completo um ponto doce, o que quer que isso signifique:

Algumas pessoas simplesmente não se sentirão confortáveis com um pequeno teclado. Meu teclado netbook é 90% de um teclado de tamanho completo, e para mim, esse é o ponto doce. Tipo I pode facilmente, sem erros mais do que o habitual. Mas, se você tem mãos pequenas ou estão comprando um para uma criança, eu ia ficar com esse tamanho, 90% ou próximo a ele. A melhor maneira de saber é procurar uma pessoa no computador, eletrônicos e lojas de materiais de escritório são um bom lugar para começar. (Eu mesmo vi modelos básicos em grandes lojas de brinquedo!)

Do trecho, compreendi que a melhor maneira de saber “é procurar uma pessoa no computador” e que “eletrônicos e lojas de material de escritório são um bom lugar para começar”. Desconfiei que se tratasse da procura por um netbook ou teclado, mas talvez o texto estivesse sugerindo procurar alguém prá testar o tamanho do teclado, embora essa dica fosse meio estranha.

Outro texto que usei no teste tinha como título “A new way to work with your PC” (publicado na página http://windows.microsoft.com/en-US/windows/discover/touch). O subtítulo “Um toque de diversão” me pareceu excelente em todos os sentidos: o parágrafo começou bem e a diversão veio logo em seguida:

Como você vai usar Windows Touch? É totalmente até você. Virtualmente qualquer programa que funciona com o Windows 7 agora responde ao seu toque. (Você pode até pintar no Paint dedo!) Nos próximos meses, à espera de ver ainda mais software finger-friendly. Bem, quem conhece a expressão inglesa “It’s up to you” não vai demorar a entender "É totalmente até você" como “Tudo depende de você”. Quem não lê, vai entender só a tradução da palavra “you” (“você”), que saiu direitinho.

Prosseguindo, não entendi o que seria o “Paint dedo!”, primeiro achei que se tratasse de um programa chamado "Paint Finger” ou “Finger Paint”. Mas como nunca tinha ouvido falar dele, fui lá no inglês e entendi que “Você pode até pintar no Paint dedo!” significa “Você pode até usar a ponta do dedo para pintar com o Paint!", o que mostra que depois do “Você pode até” tudo fica inteligível. A não ser, claro, prá quem já sabe o que é “finger-frindly”, caso em que a tradução não seria necessária.

O exemplo traz três ocorrências de “finger”, que a máquina "sabe” que significa "dedo", mas não sabe onde inserir, porque a sintaxe de cada frase é única e as possibilidades de combinação, por sua vez, são virtualmente infinitas. A ironia é que milhões de frases continuarão a ser armazenadas em dispositivos cada vez mais poderosos, mas, quanto maior o número de traduções de "dedo” armazenadas, maior a chance de a máquina não saber onde botar o dedo.

Bom, fui dar uma olhada no New York Times e acabei testando a tradução de um texto sobre as eleições em Myanmar. Mas quando vi que a frase que informa que “40 partidos estão inscritos para participar da eleição” foi traduzida como “40 partidos se registraram para ser executado”, achei que eu já estava bem de teste.

A foto é de uma página que não existe mais (deve ter sido executada): http://1.bp.blogspot.com/_QvhWeUUxSEY/RusX6W-G--I/AAAAAAAAABk/Qfq3LiUVX6s/s320/paredon.jpg.

sábado, 28 de agosto de 2010

Certifique-se de que tudo seja incerto (ou não)

Como essa pergunta voltou prá mim essa semana de novo, colo aí a dúvida e a resposta que mandei prá uma amiga tradutora há um tempo. Daí que, na próxima vez que em ela vier, só preciso colar o link prá responder.

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Olá, Claudia

Tudo bom?

Surgiu uma dúvida entre alguns tradutores e pensei em você para tirar essa dúvida. Em frases iniciadas por "certifique-se de que", como fica o verbo? No subjuntivo?

Exemplo: Certifique-se de que a máquina esteja ligada ou está ligada? Ambos estão certos? Encontrei 2 sites que afirmam que o subjuntivo está errado... e eu jurava que essa era a forma correta.

Uma luz, pls. Obrigada desde já.

bjs

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Oi, Izabel!

O subjuntivo é uma das coisas mais difíceis justamente porque depende de certas nuances (ou nuanças!) do significado. Tem casos em que temos a opção de usar o subjuntivo e também o indicativo, dependendo do grau de certeza que queiramos dar ao enunciado.

Esta frase a seguir é um exemplo em que o o “certificar-se” é usado com caráter mais afirmativo do que duvidoso, daí a opção pelo indicativo:
"Para nos certificarmos de que a oração é substantiva, podemos substituí-la pelo termo "isso"(isto, aquilo) ou "coisa", substituindo a expressão que seria representada por um substantivo e com uma das funções sintáticas apontadas acima."

Neste caso tb. há intensificação da certeza:
Após certificar-se de que essa resposta é definitiva, faça as marcações na FOLHA DE...”

Mas há muitos e muitos casos em que quem escreve opta por colocar uma pitada de incerteza no que está sendo dito. Só uma análise caso a caso pode identificar o motivo dessa opção (na maioria das vezes, muito intuitiva de quem escreve). Colo aí alguns exemplos caçados na Internet:

"... precisa também certificar-se de que seja assegurada uma oportunidade” – sugere-se que há a possibilidade de que essa oportunidade não seja assegurada."

"... reposicione as formas ou ajuste as configurações do desenho para certificar-se de que seja impresso corretamente – sugere-se que há a possibilidade de que algo não seja impresso corretamente."

"Ao comprar uma memória, o mais importante é certificar-se de que seja compatível com o sistema em que vai ser colocada” – sugere-se que há possibilidade de incompatibilidade."

"A primeira dica é certificar-se de que seja realmente um médico (quase um absurdo... mas esteticistas, fisioterapeutas, enfermeiros andam se passando por ...” – o próprio texto explica que há a possibilidade de outros profissionais se passarem por médicos."

Sintetizando: de acordo com esse critério de sugestão de – certeza / + certeza, em “Certifique-se de que a máquina esteja ligada/está ligada”, ambas as formas estão certas (dependendo só do grau de certeza que se queira adotar).

Mas, se eu for escrever, prefiro mesmo é “Verifique se a máquina está ligada”! A informação fica muito mais direta, objetiva e precisa em termos comunicativos.

Bem, espero ter ajudado. : P

Bjos!

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Um caso que grita por si (ou Como perder clientes com a tradução automática)

Se você está avaliando a possibilidade de traduzir textos para sua empresa com a tecnologia de tradução automática do Google ou é tradutor com medo de perder seus projetos, dá uma olhadinha no texto a seguir, que achei por acaso na Internet outro dia e me encantei! Não tenho o original, mas quem ler vai ver que nem precisa.

No fim da página tem o logotipo: 'Article translated by Google Translate'.

[Apesar do olhar high-end, as cortinas de madeira do disconto estão disponíveis. Construído dos tipos mais menos caros de madeira, estas cortinas de madeira do disconto podem muito razoavelmente ser fixadas o preço. São pre-projetada, pre-feito, e pre-cut e não podem ser feitos para requisitar. As cortinas de madeira do disconto vêm em estilos e em opções limitados; entretanto, são tão boa justo quanto cortinas de madeira customized nos termos da qualidade e da durabilidade. A maioria de cortinas de madeira do disconto são feitas da madeira baixa, um tipo da madeira obtido da árvore de Linden. As árvores de Linden são nativas a México, a America do Norte, a Europa, a Japão, e a Ásia. A madeira baixa é popular para a construção cega porque é macio-soft-grained e clara mas forte e durável.

As cortinas de madeira do disconto estão disponíveis em estilos diferentes na base do modelo. Estas são cortinas de madeira mini, cortinas verticais da madeira, cortinas tecidas da madeira, e cortinas de madeira do faux. Fora destes, as cortinas de madeira do faux estão geralmente disponíveis na categoria de madeira das cortinas do disconto. Porque estas cortinas de madeira não são feitas da madeira real, são uma alternativa mais menos cara às cortinas de madeira reais. Entretanto, têm um olhar similar e sentem-no.

As cortinas de madeira do disconto são categorizadas também na base do material usado: cortinas de madeira do ramin e do baixo. A madeira baixa é o mais preferido desde que tem uma grão mais distintiva e é assim mais forte. São também bons para manchar. Têm uma opção do nenhum-furo que permita as cortinas de fazer o quarto realmente escuro. Adicionalmente, o valance 3-inch nestas cortinas é muito decorativo. Ramin é uma alternativa mais barata. Têm um valance 2-inch no alto da janela para esconder os trilhos da cabeça do metal. As cortinas de madeira estão disponíveis em preços diferentes dependendo do tipo de material usado, do tipo do revestimento, as opções fornecidas e assim por diante.

O dinheiro do saving não significa não ter nenhuma escolha. Mesmo as cortinas de madeira do disconto são fornecidas com algumas opções limitadas. Estão também disponível em cores, em formulários, e em máscaras diferentes. As cortinas de madeira do disconto podem ser completamente uma alternativa -- e geralmente caro -- às cortinas reais da madeira.

As cortinas de madeira Info fornecem informação detalhada sobre o costume, o disconto, tecido, e as cortinas da madeira do faux, as.well.as as cortinas mini de madeira, as cortinas verticais de madeira, e mais. As cortinas de madeira Info são o local da irmã da correia fotorreceptora mini das cortinas.]

Artigo Fonte: Messaggiamo.Com
http://www.messaggiamo.com/pt/interior-design/32981-how-to-choose-discount-wood-blinds.html

A foto do Homer gritando é daqui: http://rriscoserrabiscos.blogspot.com/2009/04/edvard-munch-o-grito.html

terça-feira, 10 de agosto de 2010

Máquina do tempo

No fim dos anos 80 do século passado, quem não tinha carro só saía do Fundão de carona. Bom, tinha quem saísse de 634, também chamado de volta do mundo, mas prá chegar em 50 minutos na Praia Vermelha (no Campus Pinel, como a gente dizia naquela época sem culpa), na Lagoa ou na Tijuca, a saída era só a carona. E como o povo da Engenharia, geralmente do sexo masculino, ia comer no nosso bandejão (não que o nosso fosse melhor que o deles), o da Letras, geralmente do sexo feminino, cruzava as pistas no sentido contrário para pegar carona na saída do megaprédio deles.

Tanto quanto a carona, o papinho entre motoristas e caroneiros era uma instituição, e geralmente rolava um choque cultural entre as moças da Letras e os meninos da Engenharia. Não era à toa que cada escola ficava de um lado da rua: nossos mundos eram em galáxias diferentes.

Uma vez unzinho me perguntou por que eu estava na Letras e o que pretendia fazer no futuro (ele queria saber como eu ia pagar minhas contas). Bem, eu gostava de ler e escrever, adorava minhas professoras de inglês, mas, como não soubesse responder à dúvida implícita, disse que talvez viesse a trabalhar com tradução ou algo assim. Ele, que já sabia como seria o futuro, respondeu rindo que dali a algum tempo não iam existir mais tradutores, porque máquinas programadas prá converter textos entre todas as línguas (e mais as que fossem inventadas) iriam assumir esse tipo de trabalho.

Respondi singelamente (como a gente é singela quando está de carona!) que achava difícil que máquinas viessem a ter a habilidade de compreensão (prá traduzir não é preciso entender o que está escrito?), porque colocar as palavras em fila não cria um texto. Ele pareceu não se convencer e seguimos nosso trajeto, na Brasil e na vida.

Mais de vinte anos e muitos quilômetros rodados e voados depois, rio quando leio o que andam prometendo por aí: traduções automáticas, eliminação de custos com tradução, enfim, a velha ideia do robô está mais viva do que nunca.

Mas com o tradutor do Google, “reconhecido como o melhor entre os sistemas comerciais”, segundo David Yarowsky, professor de ciência da computação da Johns Hopkins citado naquela matéria da Veja (http://veja.abril.com.br/050510/lingua-google-p-122.shtml), uma informação simples como a de que “40 partidos estão inscritos para participar da eleição” (em Myanmar, conforme matéria do NY Times de hoje) vira “40 partidos se registraram para ser executado", o que sugere que os candidatos vão encarar um grande paredon.

Como participante das várias etapas de projetos de tradução de máquina (a maioria feita por profissionais de tradução de carne e osso), minha vontade é de exclamar: fala sério!

Isso porque a vantagem financeira da tecnologia para os desenvolvedores, por enquanto, é de origem exclusivamente psicomercadológica (ou perversocapitalista): a derrubada das taxas de tradutores que temem ficar sem trabalho.

Só pra dar uma ideia: com todo o investimento, toda a tecnologia e todos os esforços, a máquina de tradução ainda está mais ou menos no estágio de desenvolvimento da máquina do tempo do clássico de H. G. Wells.

ps: essa é minha resposta ao convite feito pela Maíra Monteiro, que levantou belamente o assunto na postagem dela dessa semana (O mito da tradução automática na Veja) no blog da LocHouse.

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Última flor da Lácio

Prá saber o que a Lácio faz, é só entrar ali em O que é a Lácio?, que eu não vou falar tudo de novo.

Esse blog é o playground da firma: a ideia é fazer aqui o que não dá pra fazer no espaço oficial, como fofocas da indústria, reclamações e campanhas (gente, já chega de baixar taxas, né?). Acho que vamos acabar falando de terminologia, memórias de tradução e ansiedades tradutórias. Esse espaço vai ser tipo a cozinha da Lácio, aquele lugarzinho superdiscreto prá onde a gente foge prá fazer os comentários relevantes da festa. Por falar nisso: não pretendo escrever nada em inglês nem em outra lengua aqui, que na hora do recreio só quero português.

E, claro, clientes também são muito bem-vindos aqui!

Bem, a casa está aberta prá quem quiser, quem vier prá tratar de assunto linguístico, até porque praticamente todo assunto é linguístico, ou é impressão minha?