quinta-feira, 4 de novembro de 2010

A presidente(a), o gênero e o sexo das palavras (e dos anjos)

Ele é sempre assustador, mas o moralismo linguístico é dos piores, porque se apresenta como saber incontestável.

A coluna do Aziz Ahmed do Jornal do Commercio de hoje (eu não assino, mas eles me mandam na esperança...) tem uma nota com o título “É presidenta”, que traz depoimento do professor Nilson Damasceno explicando por que o feminino deve ser usado: além do Aurélio e do VOLP, o Houaiss “mantém o entendimento de que presidenta é feminino de presidente e registra como sua primeira acepção: ‘mulher que se elege para a presidência de um país'”.

Até aí morreu Neves atolado no cuspe, ou no cuspo, palavra que o Houaiss também registra, mas nem por isso tenho que preferir. O fato é que o termo “presidente” está lá como n substantivo de dois gêneros e n adjetivo de dois gêneros, assim como “doente”, “cliente”, “vidente” e outras tantas palavras que não são do gênero masculino, o que parece complicado só porque tem muito mais palavras femininas e masculinas do que de dois gêneros na nossa língua.

No caso de “presidenta”, os dicionários só fizerem o serviço deles quando registraram o uso existente na boca de um número significativo de falantes. Mas a coisa se complica pelo fato de que durante muito tempo só houve presidentes do sexo masculino e também, claro, pela justificada confusão entre gênero e sexo.

Categoria gramatical, o gênero nada tem a ver nem com xibiu nem com piupiu: “cadeira” e “mesa” não são do sexo feminino, da mesma forma que “aspirador” e “refrigerador” não são do sexo masculino. Um curioso pode revirar essas coisas por todos os lados que não vai encontrar sexo nenhum, pelo menos não neste mundo nosso. Ou seja, as palavras, como os anjos, não têm sexo, assim como as pessoas não têm gênero (nem quando fazem gênero).

Daí que “presidente” nem é palavra do gênero masculino, nem precisa ser usada exclusivamente para pessoas do sexo masculino.

De toda forma, entendo quem prefira usar a forma feminina da palavra para ressaltar a conquista feminina, já eu considero que “presidente” é todo cidadão eleito para o cargo, independentemente de sexo, e acho importante usar a mesma palavra para marcar o caráter de igualdade entre os sexos. E ainda rio da possibilidade de escolha para elas, mas não para eles.

Em suma, se os dicionários registram tanto o substantivo de dois gêneros (o presidente/a presidente) quanto o feminino (a presidenta), só há problema para quem quer que só haja uma possibilidade.

E em tempo: Buck Angel, a mesma pessoa nas fotos da direita e da esquerda, tem sexo feminino, mas não tem gênero porque não é palavra, como, aliás, qualquer outra pessoa. O resto é confusão que não vale a pena. O site oficial de Buck  é esse: http://www.buckangel.com/index.html, que delícia!