sexta-feira, 1 de abril de 2011

O tradutor que come você

Conheço uma tradutora que, depois de um solene “I am sorry”, avisou a um cliente que disse que não aceitaria mais nenhum erro de tradução que ele tinha “unrealistic expectations” (expectativas “fora da realidade”, ou “irrealistas”, ou “irrealísticas”, o que não vem ao caso). Eu gostaria imensamente de ter visto a cara dele, porque é isso mesmo, existem erros de tradução e sempre vão existir, da mesma forma como existem erros na aviação, na pedagogia, na culinária e na construção civil, cada um com seus graus de relevância e consequências.

Mas a atividade de localização de software inventa umas categorias de erro que não se devem a distração, descuido, cansaço, pressa, nem dificuldade de interpretação do original, mas a um esforço deliberado de seguir um padrão, uma norma, que não existe na língua natural, mas só em algumas cabeças, como é o caso de comer o "você" de frases em português.

Existem muitos motivos pra alguém comer você. Um deles é a insólita proibição do uso dessa palavra por alguns clientes, que alegam que a tradução "vai ser usada em Portugal também", como se a única diferença entre as duas línguas fosse o você... 

Tem ainda os clientes que recomendam "evitar" o uso de você, devendo o tradutor usar essa palavra maldita só em última instância. Como se não bastasse, existe a lembrança dos conselhos de professores que condenavam  à forca quem repetisse palavras desnecessariamente. Se somarmos a isso a recomendação estilística de eliminação do sujeito (que ficaria elíptico) quando ele está implícito ou se repete em orações contíguas, está pronto o cenário para um tradutor comer você.

Na frase a seguir, por exemplo, lemos "fizer alterações enquanto (o mesmo alguém) estiver off-line", certo?

"Se alguém fizer alterações em seu documento enquanto estiver off-line, você poderá sincronizar essas alterações quando se conectar novamente."

Só que ali você foi comido, porque o original diz:

"If anyone makes changes to your document while *YOU’re* offline, you can sync those changes once you come back online."

Ou seja, se alguém alterar algo enquanto “VOCÊ estiver off-line”, mas a proximidade do outro você fez com que o tradutor simplesmente comesse o sujeito relevante ali. Não, não é distração, todo dia alguém come você como não come nenhuma outra palavra.

Claro que ninguém vai morrer carbonizado, nem traumatizado, nem envenenado, nem soterrado por causa dessa informação equivocada, só vai ter um pouco mais de dificuldade em saber como funciona o produto, xingar o fabricante, o engenheiro ou, sei lá, de repente ninguém nem vai notar, só o revisor, que alguém comeu você.

3 comentários:

  1. Carla mãe da Alice1 de abril de 2011 18:57

    Essas regras engessadas e idiotas só servem para empobrecer ainda mais o material a ser traduzido. Já não é agradável o infeliz ter que ler um manual ou o que valha, e ainda o obrigam a ler um texto canhestro e difícil de entender.

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  2. acho trágico que alguém se esforce pra seguir regras mirabolantes -- pq qto mais a criatura acha que está cuidando da 'qualidade' do texto, mais a coisa de torna ilegível.

    lembro de umas tantas coisas assim, tipo a proibição de usar 'através' (?), a irritante norma que define que 'isso' só se refere a algo dito antes, enquanto 'isto' só pode ser usado pra algo que vem em seguida, são tantas ideias fora do lugar...

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  3. "se torna" : )

    (e pt-BR-linguist sou eu)

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